sábado, 16 de maio de 2015

Vice City Stories - Parte 3


Assim que acordou na tarde de segunda-feira, depois de dormir muito mal em um colchão fino, Vic pensou em ir à sala de tiros de Phil para agradecê-lo pela casa e para ver qual era o trabalho que ele havia prometido na mensagem enviada na madrugada. Foi andando até o armazém ao lado do porto. No caminho, encontrou uma lanchonete para tomar café-da-manhã. Quando adentrou ao recinto de Phil, Vic o chamou, mas não havia ninguém por lá. Foi quando sentiu algo tocar suas costas.

 Coloque suas mãos onde eu possa vê-las, garoto... – soou a voz grave inconfundível de Phil, apontando uma espingarda para as costas de Vic, que logo pensou que sua desconfiança sobre a mensagem de Phil ter sido oportuna demais e que poderia ser uma armadilha estava correta – Você acha que pode vir aqui e me roubar? Provavelmente tentar me estuprar? Conheço sua raça!

Ao ouvir a frase sem muito sentido de Phil, Vic rapidamente teve um alivio e disse:

 Phil, sou eu! Vic! Seu parceiro!

 Eu vou te ensinar uma lição. Abaixe suas calças e prepare-se para chorar. Vou te dar um supositório de espingarda! – diz Phil, parecendo estar meio fora de si.

Vic se vira e bate abruptamente com o braço na espingarda de Phil, que dispara para o teto. Phil solta altas gargalhadas. Vic percebe que ele está bêbado como um porco.

 Phil! Sou eu, Vic! Vic Vance! – grita Vic.

 Vic! Por que você não disse antes? Bom te ver, irmão! Vem cá! – Phil se anima e puxa a cabeça de Vic para a sua, depois de ter demorado alguns segundos para reconhecê-lo – Deixa eu espremer um peido de você!

Phil arrota e se afasta de Vic, dizendo:

 Sinto muito por Bruce, cara. Ele era o melhor. Eu ainda posso ver o sorriso em seu rosto quando ele atirou naquele coreaninho. “Bang! Vai para o inferno! Merda!”.

 Você andou bebendo? – pergunta Vic, sendo respondido por um arroto de Phil.

 O que você acha? Escuta, a gente precisa ir. Tenho uma coisa para te mostrar. Vamos lá! Agora! – diz Phil, saindo do armazém em direção a sua caminhonete estacionada no mesmo lugar de sempre.

 Espera aí. Você vai dirigir? – pergunta Vic, incrédulo. De novo a resposta é um arroto.

 VAMOS LÁ! IIIIIIIRRÁ! – Phil entra na caminhonete cambaleando e grita. Ele dá a partida, acelera e bate de frente com a parede.

 Acho que eu deveria dirigir, cara... – Vic sugere.

 Mas que merda! – grita Phil, inconformado, abrindo a porta da caminhonete.

Phil diz para Vic ir até a delegacia e procurar alguns Cholos para fazer um drive-by, ou seja, passar de carro e soltar uma rajada de tiros contra alguém. Durante o caminho, Phil faz confissões.

 Só estou tentando viver uma vida honesta, cara. Mas eles são organizados. Não posso competir, cara. Sabe, esse país costumava ser um lugar bom...

Vic estaciona a caminhonete em frente à delegacia e espera por vinte minutos. Nada de Cholos. Phil diz que achava que alguns Cholos apareceriam por lá por sempre estarem sendo presos, mas havia se enganado. Ele pede para Vic ir embora, pois policiais o deixavam nervoso. Também diz que sabia de outro lugar onde Cholos ficavam: o hospital que ficava a alguns metros depois da delegacia. Na mosca. Após alguns minutos parados em frente ao hospital, um Cholo aparece vestido com os trajes tradicionais: faixa branca na cabeça, camiseta branca e calça bege.

 Cholo filho da puta! Olha lá! Cholo filho da puta! – Phil fica louco e começa a gritar.

O Cholo ouve e sai correndo. Entra em um carro amarelo estacionado em frente ao hospital e sai cantando pneus. Vic acelera a caminhonete e uma perseguição é iniciada.

 Cholos de merda! Quem eles pensam que são? Querem mexer comigo!? Phil “Bitch Killer” Cassidy!? – Phil diz, enquanto põe o corpo para fora da janela e metralha o tanque do carro amarelo a frente até explodir e o Cholo voar pelos ares junto com as peças.

Assim que finaliza o serviço, Phil volta para o banco, assopra o cano quente de sua metralhadora e diz:

 Vamos ter que consertar meu carro, Vic. Essa senhorinha não está muito bonita.

Vic leva a caminhonete à oficina mais próxima para realizar os reparos necessários para as batidas na traseira do carro do Cholo morto. Depois de algumas horas por lá, a caminhonete está pronta.

 Cara, ela está parecendo uma flor agora! – diz Phil, apaixonado por sua caminhonete.

Assim que Vic chega ao armazém de Phil, ouve:

 Você é um bom braço direito, Vic! Os Cholos do caralho vão pensar duas vezes antes de cagarem no meu caminho daqui para frente. Te vejo por aí, parceiro. Até mais.

Phil dá duzentos dólares para Vic e tem um sorriso no rosto. Vic pensa que aquele cara não seria um problema e que realmente poderia confiar nele. Ele deixa a caminhonete de Phil no lugar de sempre e vai andando para casa. No caminho, recebe uma mensagem do próprio Phil em seu pager que diz: “O marido da minha irmã, Marty, está procurando por caras bons como você...”. Chegando em casa, Vic liga para Phil para pegar o endereço de Marty. Era logo atrás de sua casa. Mais um dia havia chegado ao fim e mais um contato havia sido feito.

Marty Jay Williams era um homem de quarenta e cinco anos, magro, calvo e com um bigode grosso que morava em uma área de terra batida com vários trailers de caipiras que chegaram a Vice City nos anos setenta. Ao lado dos trailers, ficavam prédios em construção e uma pequena concessionária chamada Sunshine Autos. Todos os caipiras formavam uma gangue, a Trailer Park Mafia, em que Marty era o líder. A gangue trabalhava com várias atividades, entre elas segurança para comércios (e a consequente destruição para quem não a aceitasse, a típica extorsão), prostituição, tráfico de drogas e agiotagem.

Vic foi até a área em que Marty morava e gritou por seu nome, dizendo que Phil havia o enviado até lá. Foi quando uma linda mulher morena de pele branca e olhos claros, fortemente maquiada e aparentemente com vinte e cinco anos, lentamente apareceu na porta de um dos trailers com um bebê recém-nascido no colo. Dava para ver uma tatuagem de uma flor em seu seio esquerdo, coberto por uma blusa lilás decotada. Vic sofreu um baque com a beleza estonteante da mulher e disse:

 Ah, oi.

 Marty não está em casa nem nada... – diz a mulher, com uma voz forte.

 Ah, ok. Você sabe quando ele volta? – Vic pergunta, ainda meio paralisado.

– Não sei de nada! – responde a mulher.

Nesse momento, uma caminhonete laranja chega aos trailers e Marty está dentro. A mulher logo pede licença e se esconde dentro do trailer em que mora. De dentro da caminhonete, Marty olha para Vic com um olhar nada amigável, apoia o braço na porta e pergunta com seu sotaque caipira:

 O que você quer, garoto?

 Nada, você é o Marty? – Vic pergunta.

 Não. Agora some, garoto! – diz Marty, após pensar um pouco – VADIA, VADIA! Traz essa bunda para cá agora! Eu falei para você limpar essa merda!

A linda mulher novamente aparece na porta do trailer e diz nervosa para o marido, que havia saído da caminhonete:

 Marty! Mary Beth está doente!

 Não venha usar esse bebê como desculpa para cima de mim, Louise! Porque eu vou bater nele do mesmo jeito que vou bater em você! – Marty ameaça sua esposa, que, por sinal, se chama Louise. 

 Você é a Louise? Sou amigo do Phil... – Vic se intromete.

 Amigo do Phil? Nossa, por que você não disse antes, garoto? Sou Marty Jay Williams! – diz Marty, sorridente ao estender a mão para Vic.

 Eu estava muito ocupado vendo você ameaçar sua mulher... – Vic ignora o aperto de mãos.

 Nós estávamos apenas brincando, garoto! – Marty diz, totalmente sem graça.

 Ele não ia fazer nada. Ele só me bate quando eu mereço... – diz Louise.

 Sério? – pergunta Vic, ironicamente – Bem, Phil me disse que vocês têm um trabalho para mim. Sou Vic Vance.

 Sim, claro. Eu tenho que cuidar de algumas coisas agora, na verdade. Dirija para mim. E Louise... – diz Marty olhando para sua esposa na porta do trailer – É melhor você limpar essa merda aqui até antes de eu voltar. VOCÊ ME ENTENDEU?

Vic e Marty saem com a caminhonete. Marty diz a Vic que seus negócios estão sendo atrapalhados por alguns idiotas e que ele precisava resolver isso. Vic fica curioso e pergunta a Marty que tipo de negócios ele tinha. A resposta é simples: ele cuida das pessoas e as pessoas cuidam dele. Vic entende que tudo envolvia crimes.

Os dois chegam a um pequeno comércio chamado Mal Viento, em um bairro da cidade chamado Little Havana, local pobre habitado por imigrantes cubanos e lar de várias gangues. Marty diz para Vic entrar lá e dar uma lição nas pessoas que estavam lá dentro. Quando Vic abre a porta da caminhonete, dois Cholos saem da porta do comércio e, ao verem Marty na caminhonete, partem para cima de Vic, mas não demora muito para perderem a luta corporal. Quando Vic entra na lojinha, vê dois Cholos ameaçando o dono que, quase chorando, diz que não tem mais dinheiro para pagar por segurança.

 Você não paga, você não fica. Vamos foder esse lugar! – diz um Cholo, com um carregadíssimo sotaque mexicano, para seu companheiro começar a destruir as vitrines com um taco de baseball, até verem Vic parado de braços cruzados na porta – Quem é esse heroi?

Vic pega facilmente o taco de baseball do mexicano e novamente acaba com dois Cholos de uma só vez. Marty entra na lojinha e diz:

 Você foi muito bem, Vic!

 Marty, ele está com você? – pergunta o dono da loja, tremendo.

 O que você está fazendo deixando esses vermes entrarem na sua loja? Minha segurança não cobre visitas diárias. Você está me testando, cara? É isso? Você quer ver minha cara linda aqui todo dia? – Marty ameaça o dono da loja.

 N-n-n-não! – o dono da loja gagueja.

 Por ter feito eu perder meu tempo, sua segurança acabou! – Marty decreta ao pobre dono da Mal Viento de Little Havana.

Marty e Vic saem da loja e entram na caminhonete. Marty diz que havia outra loja por perto em que os Cholos faziam segurança. Agora a loja precisaria de nova segurança. Enquanto dirigia para a orla, Vic ia aprendendo como as coisas realmente funcionavam na cidade e sabia que aquilo poderia ser um caminho futuro. Ao chegarem ao supermercado Verdi, Marty diz para quem quisesse ouvir que fará a nova segurança do lugar.

 Mas eu já pago segurança aos Cholos! – diz o dono do comércio. 

 Não estou vendo você pagar segurança para nenhum Cholo aqui. Vic, ao trabalho! – Marty ordena Vic a começar a quebrar tudo.

 Marty, isso não é certo... – Vic hesita em fazer o serviço.

 Se você quer ser pago, aja como um homem. Ou você não tem bolas? – Marty desafia Vic.

Vic não tem outra escolha a não ser quebrar tudo que encontra pela frente. O dono do comércio chora implorando para parar e dizendo que não quer nenhum problema. O barulho de dentro do supermercado chama a atenção de três Cholos armados que passavam pela orla. Eles deixam o carro atravessado na rua e entram correndo e atirando em Vic, que se protege atrás dos refrigeradores. Marty se joga sobre o balcão do caixa para escapar dos tiros. Mas Vic age rapidamente e bate com o taco de baseball na mão do Cholo mais próximo e pega sua arma. Um tiro de Vic, ex-combatente do Exército, equivale a dez tiros dos Cholos. Era claro que Vic mataria todos facilmente.  Quando vê todos os mexicanos baleados no chão de seu estabelecimento, o dono cede. O trabalho estava feito. Vic e Marty saem do supermercado destruído.

 Você fez um trabalho de homem hoje. Devo ter mais trabalho para você. Até mais! – diz Marty ao entrar em sua caminhonete e ir embora.

Vic pega o carro que os Cholos deixaram atravessado na rua e vai para casa com quinhentos dólares de recompensa, além de três pistolas e um taco de baseball sujo de sangue.

Naquela noite, Vic vai ver Phil. Quando chega ao armazém do homem das armas, nenhuma novidade: Phil está estirado no chão, bêbado.

 Phil, que o está acontecendo? Você está zoado! – pergunta Vic.

 Não estou bêbado. Estou apenas descansando meus olhos... – Phil resmunga.

 Ok. Então, qual é a boa? – Vic tenta arrumar alguma ação para a noite.

 Meu Boomshine está para ser explodido e voar pelos ares por causa de alguns idiotas nervosos... – resmunga Phil, ainda deitado no chão.

 Como é que é? – Vic não entende nada.

 Aqueles Cholos vão explodir meu licor! Tem bastante no meu galpão e um fósforo aceso explode tudo até o Tennessee. “Tennessee, here I come...” – canta o bêbado, quase sem força para falar.

 Phil, vamos lá! Vamos resolver isso! – Vic tenta levantar Phil do chão, que se recusa e rola rindo.

 O negócio, menino Vic, é que meu pai era um cara nervoso. Ele nunca, mas nunca, me disse que eu era especial. Na verdade, ele costumava me bater. Especialmente quando ele me pegava olhando para a minha prima ou a minha irmã. Sabe o que ele me dizia? Que era melhor eu estar morto... – relembra Phil, quase chorando.

 E como isso exatamente vai ajudar? – Vic não dá a mínima para a confissão do amigo e ironiza.

 A tragédia disso é: eu sou exatamente igual a ele. Sou um bêbado. Eu mereço morrer! Deveria ter sido eu no lugar do Zack na Hill 491, cara! – Phil se ajoelha e logo depois abre os braços gritando: – Eu estou voltando para casa, papai! É isso aí, papai! Estou voltando para casa!

 Você é patético... – diz Vic ao ver Phil cair de costas no chão, um bêbado.

Depois de cinco minutos arrotando no chão, Phil finalmente se levanta e pede para Vic o levar em sua caminhonete ao seu galpão onde estavam suas caixas de Boomshine, uma bebida alcoólica extremamente volátil em que qualquer contato com fogo faz uma enorme explosão. O galpão ficava próximo a base militar onde Vic trabalhava. A caminhonete passa pelo corredor que leva à porta dos fundos, onde há uma enorme placa escrita The Big Package Storage Corporation.

 Eu poderia jurar que tinha trancado esse lugar... – estranha Phil ao ver uma das portas de metal meio aberta e vai até lá.

Vic percebe que poderia ser uma armadilha e grita:

 PHIL, NÃO ABRA ESSA P... – é interrompido pela explosão.

 PAPAI! PAPAI, PAPAI, PAPAI! – Phil grita ao mesmo tempo em que tudo explode, mas sobrevive, pois a explosão foi no centro do local e não próximo a porta – Cholos desgraçados, armaram uma armadilha no meu galpão! Não tem mistério: quando esse Boomshine explodir, nós vamos morrer!

 Pega o que você conseguir! Vou pegar a merda da sua bebida! – diz Vic, entrando no galpão em direção a uma empilhadeira ainda intacta mesmo após a explosão.

 Vou estar na caçamba da caminhonete. Leva as caixas para lá! – avisa Phil, correndo para o seu carro e o estacionando de ré, bem na porta do galpão.

Vic entra na empilhadeira e começa a recolher as caixas que não explodiram e a colocá-las na caçamba da caminhonete. Quanto mais tempo passava, mais arriscado era, pois pedaços do teto estavam desabando, por sorte, suficientemente longe das caixas com a bebida. Em menos de cinco minutos, Vic consegue recolher todas as caixas aproveitáveis do galpão e dá o sinal para Phil sair com a caminhonete.

 É melhor eu colocar esses bebês em algum lugar seguro, né? – Phil pergunta e ao mesmo tempo afirma, partindo para seu armazém próximo ao porto.

Aquela noite foi a primeira vez que Vic fez algo que nunca havia imaginado fazer: roubar. Como estava longe de casa e já passava da uma da manhã, ele não tinha opção de transporte. Então, ainda com o sangue fervendo pela a ação que teve à tarde com Marty, matando a sangue frio vários Cholos e “pegando” o carro deles para ir embora (para Vic, pegar um carro de alguém morto não era roubar), Vic se encheu de coragem e decidiu que o primeiro veículo que passasse na rua, incrivelmente ainda deserta depois de uma explosão, seria roubado por ele. Vic aguardou por menos de um minuto, quando uma moto virou a esquina e parou no sinal vermelho da rua. Vic apenas tirou sua pistola e apontou para o motoqueiro, que rapidamente saiu da moto e não reagiu ao assalto. Vic subiu na moto e acelerou. Virou à direita em direção à praia e à direita novamente, em direção à sua casa. A noite se encerrou quinze minutos depois e Vic agora tinha uma moto na garagem.

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