sexta-feira, 17 de julho de 2015

Vice City Stories - Parte 16


Vic passou a noite em claro. Ele se arriscara demais tirando fotos de Martínez para entregar aos irmãos Mendez. Será que Lance havia entregado as fotos e Armando e Diego acreditaram que Martínez estava por trás do roubo da droga? Assim que amanheceu, Vic tentou contato com seu irmão, mas não conseguiu. Resolveu enviar uma mensagem pelo pager, mas duas horas se passaram e não houve resposta. Só restou um jeito de descobrir se tudo havia dado certo: ir até Prawn Island visitar os barões latinos. Vic resolve ir com seu carro por questão de segurança em uma possível fuga. Ele chega à mansão exatamente às nove da manhã. Os seguranças o deixam passar. Vic vai ao escritório e aguarda os irmãos, que haviam sido avisados que Vic Vance estava lá. Vic foi sem medo. Não havia o que fazer. Se o plano de Lance tivesse dado errado, ele já estaria morto. Com um pai morto, um irmão assassinado e uma mãe viciada em pó, ninguém seguraria Vic nesta vida. Nem Louise, que ele há muito tempo queria ver, mas temia por sua segurança. Após alguns minutos, Armando recepciona Vic e diz enquanto prepara um uísque:

 Então, agora estamos juntos. E ainda: negócios são difíceis. Essa indústria está cheia de criminosos...

 É mesmo? – Vic ironiza, tentando mostrar confiança.

 Dinheiro pode ser muito corruptor. E eu acho isso bem desagradável... – Armando diz.

 Hehe! Bem, é assim que funcionam os negócios das drogas, você sabe. Atrai as piores coisas... – Vic tenta tornar a conversa agradável.

 Claro. Você é digno de confiança, amigo? – Armando pergunta desafiadoramente para Vic, olhando no fundo de seus olhos.

 Eu não sei... – Vic responde prontamente – Pelo que eu passei recentemente, eu diria que provavelmente não.

 Ótimo! Honestidade é uma qualidade bem atraente! Estou te promovendo, Vic! – Armando diz, aparentemente contente com a resposta, e dá um tapinha no ombro de Vic.

 Obrigado. O que você precisa que eu faça? – Vic se submete.

 Vá para Vice Point. O pessoal de lá está me roubando há anos. Remova-os e prepare o comércio. Precisamos de um local para distribuir produtos... – diz Armando.

 Olha, eu não estou interessado nessa parte do negócio... – Vic diz.

– Infelizmente, você não tem escolha... – Armando sussurra, novamente encarando Vic – Agora vai, Vic, por favor.

Um dos seguranças dá um endereço a Vic. O local era dominado por motoqueiros. Vic precisaria limpar o local e tomar o comércio. Não era muito longe dali. Vic chega em um drive-by pela fachada, eliminando os seguranças da pequena casa. Arromba a porta com um chute e solta uma rajada de tiros de seu fuzil contra quem estivesse dentro. Depois os capangas dos Mendez reformariam as paredes furadas. Assim que limpa a área, Vic liga para o chefe da segurança de Mendez e libera a ocupação. Enquanto espera pela chegada dos homens, Vic finalmente recebe a resposta de Lance: “Vem até aqui, mano!”.

 Lance! – Vic chega à casa de Lance e o vê procurando algo embaixo do sofá – Vem aqui agora e se explique!

 Shhhhhhh! – Lance manda Vic falar baixo, com o dedo na boca enquanto dá passos leves no chão.

 Não haja igual uma criança! – Vic grita.

 SHHHHHHHHHHHH! – Lance insiste.

 Não faça “shhh” pra mim! – Vic responde.

 Fala baixo! – Lance sussurra.

 Não! Você mal consegue amarrar seus sapatos e quer me falar o que eu devo fazer? – Vic se irrita.

 VOCÊ NÃO PODE CALAR A BOCA, SEU GORILA ESTÚPIDO!? – Lance explode e vai para cima de seu irmão – A CASA ESTÁ GRAMPEADA! A DEA ESTÁ NA NOSSA COLA! FELIZ AGORA?

O clima fica muito pesado. O silêncio toma conta do ambiente e os dois irmãos se sentam no sofá da sala. Vic não fala nada por alguns minutos. De repente, ele sai da casa de Lance indo em direção a sua moto. Lance percebe e vai atrás de seu irmão:

 Aonde você vai, cara?

 Vamos ter grampos em todos os nossos locais... – Vic diz, colocando seu capacete.

 E quando você achar todos, já vamos estar na metade do caminho para uma longa sentença de prisão... – Lance ironiza.

 O que eu devo fazer!? – Vic grita.

 Esses grampos transmitem longe. Então seria derrubar todas as antenas da polícia... – Lance diz – A DEA não vai ter um sinalzinho dessas coisas.

Vic pensou que a ideia do irmão era realmente boa e a melhor opção no momento. Mas atirar em antenas não resolveria. Elas teriam que ser explodidas. Então era hora de passar na Ammu-Nation, a maior loja de armas do país desde 1963, para comprar algo para lançar bombas. Vic entra em uma loja próxima a casa de Lance e compra um RPG, popularmente conhecido como Lança-Míssil. Essa arma custa bem caro, mas a situação necessitava dessa despesa, que seria muito menor do que ser pego pela DEA. Vic volta até a casa de Lance com o RPG em mãos em sua moto para guardá-lo dentro de um carro, para não chamar atenção. Vic vai com o carro de Lance a várias delegacias da cidade. Todas elas tinham antenas no telhado visíveis da rua. Então Vic sempre se escondia em algum beco ou arbusto por perto e lançava os mísseis no telhado das delegacias. Com certeza alguma antena destruída deveria ser a que estava recebendo o sinal dos grampos dos irmãos Vance. Quando a polícia saia para verificar quem estava bombardeando tudo, Vic já estava em seu carro, bem longe dali indo em direção a outra delegacia. Em menos de meia hora, Vic bombardeou três delegacias: a de Washington Beach, a de Little Havana e a do centro da cidade. Na delegacia do centro, já haviam preparado uma proteção bem maior após saberem dos dois ataques anteriores, então Vic age furtivamente para destruir a antena e foge em direção ao hotel que Lance ainda tinha o quarto. Ele fica por lá com um nome falso sem sair até a madrugada. Ninguém havia testemunhado seus ataques graças a sua ação furtiva. Vic pergunta a Lance se sua ação havia dado resultado e recebe resposta de que fontes da polícia disseram que o ataque causou grande dano aos planos e investigações da DEA, tendo sido, então, um sucesso. Vic reagiu de duas maneiras: feliz, por ter dado certo, e preocupado, também por ter dado certo. A reação da DEA viria.

Naquela noite, no hotel, Vic recebe uma mensagem de Reni, a pessoa que o diretor Spitz havia falado para Vic contatar caso quisesse continuar na carreira de cinema: “Querido! Eu tenho um lucrativo contato para você. Abraços!”. Para sair da atmosfera de negócios de drogas, Vic espera amanhecer e vai ao Interglobal Studios para conhecer Reni.

Reni Wassulmaier era uma diretora alemã. Transexual, Reni era alta e se vestia e se maquiava baseada na androginia, sendo praticamente uma mistura de Ziggy Stardust com Boy George, duas grandes figuras (principalmente o último) na cultura pop europeia dos anos oitenta. Reni tinha em torno de quarenta anos e havia passado por várias cirurgias de mudança de sexo, nunca decidindo qual gênero gostaria de ter, então de cara não era possível identificar se ela era, de fato, uma mulher. Naquele momento atual de vida, era um homem. Reni havia sido prostituta e participado da indústria pornô em Berlim, mas ficou famosa na Europa após dirigir alguns filmes de arte vanguardista e chocantes. Ela levou toda sua companhia de filmes para a América em 1983. Com ela, foi seu fiel assistente Frankie, um homem loiro, de cabelos encaracolados e de trejeitos bem afeminados, o que combinava com o estilo de Reni. Os dois ficavam praticamente o dia inteiro nos camarins do Interglobal Studios. Era lá que estavam na manhã em que Vic foi fazer uma visita.

 O que você acha, hein? É genial, não é? Genial... FRANKIE! – Reni conversa com seu forte sotaque alemão com seu assistente sobre algum projeto.

 Genial, Reni! – Frankie diz, enquanto faz anotações.

 Genial, querido! É a história da época! – Reni se empolga – Sucesso e falhas. Homem. Mulher. E eu? Esmago os dois! Arte e propaganda. Futuro e passado. Homem e mulher.

 Errr... – Vic chega até a porta do camarim e fica um pouco surpreso com a figura que vê.

 Frankie, quem é esse homem lindo? – Reni o analisa e pergunta a seu assistente.

 Eu não sei. Quem é você? – Frankie pergunta a Vic.

 Estou procurando por alguém chamado Reni... – Vic diz.

 Tadããã! – Frankie aponta para Reni.

 Ah, sim. Spitz disse que talvez você queira algo... – Vic completa.

 Algo? Ah, cocaína, hahaha! Querido, eu quero cocaína! – Reni fica alegre, batendo palmas e rindo – A mamãe quer cheirar um pouquinho e quer agora! Você deve ser o cara da cocaína. Frankie, o cara da cocaína está aqui!

 Hahaha! – Frankie começa a gritar e a pular, indo a outra sala.

 Ei! Vocês não podem falar isso mais alto? – Vic se irrita e ironiza – Acho que não ouviram vocês em Cuba...

 Ah, seu quadrado de merda! É só um pozinho... – Reni diz – Estamos em 1984, caralho. Todo mundo usa cocaína, querido!

 Tá bom, tanto faz, senhor... Errr... Senhora... Errr...– Vic não sabe o que dizer.

 Oh, querido! Eu sou um pouquinho de tudo. Sou universal! Reni Wassulmaier! Mas você, anjo, você é único! Posso filmar você tirando a roupa? – Reni pergunta indiscretamente a Vic.

 Uuh, Reni, nós temos um problema! – Frankie volta da sala gritando, com seu jeito afeminado.

 Agora não, querido. Estou flertando. Estou sonhando... – Reni começa a viajar – Um chateau no Loire, dois amantes abraçados...

 Reni! O dublê acabou de pedir demissão! – Frankie interrompe Reni – Ele disse que não gostou de você ficar pegando na bunda dele...

 Ele o que!? Oh, foi apenas diversão. Isso aqui é pura paixão. Querido, por favor, me salve! – Reni abraça as pernas de Vic.

 Ei! Sai fora! – Vic tenta tirar o andrógino de suas pernas, que não larga – Ok, ok! Do que você precisa?

 Apenas de um motorista... – Reni suplica.

 Tá bom, tudo bem. Agora sai fora! Ei! Sai fora! – Vic afasta Reni, que estava passando a mão em sua bunda.

Vic e Reni vão para o pátio da Interglobal. Lá tem um carro parado, várias pessoas com câmeras e um helicóptero cheio de gente com camisetas de produção. Vic faria novamente o papel de dublê, desta vez dirigindo um carro.

 Você não precisa de nenhum produto? – Vic pergunta.

 Preciso das metáforas das calamidades da vida, querido... – Reni responde, entrando no helicóptero – Dirija bem e eu te apresento mais compradores do que você pode imaginar. Lembre-se, anjo: esse comercial precisa de ação, ação, ação!

O helicóptero levanta voo, mas fica bem próximo do chão. Reni usa um megafone para falar com Vic. Ela aguarda ele entrar no carro e dá o comando para as gravações começarem. O que Vic deveria fazer era muito simples: rodar pelos arredores da cidade em alta velocidade para que o helicóptero pudesse filmar tudo. E quanto mais perseguição policial, melhor. Não demora muito e já há uma viatura atrás de Vic, que faz curvas em altíssima velocidade, mostrando toda sua habilidade ao dirigir e encantando Reni. Dois minutos de gravação já seriam suficientes, então Vic recebe a ordem de voltar ao estúdio, onde deveria entrar pelo portão e saltar numa rampa para cair em um cenário de um prédio, como se o carro tivesse invadido um apartamento. É o que Vic faz perfeitamente. A viatura da polícia o seguiu até a entrada do estúdio, lá eles receberiam um valor para não se importarem com aquela pequena ousadia no trânsito.

Reni sai do helicóptero muito satisfeita com o trabalho de Vic. Ela entrega oitocentos e cinquenta dólares a ele, o convida para mais trabalhos e promete dar os nomes de compradores para Vic se ele aparecesse mais vezes no estúdio. Trato feito. Vic tinha uma grande fonte de renda por perto e queria aproveitar ao máximo o que Reni tinha a oferecer.

2 comentários:

  1. Muito bom, cara, só percebi um erro:

    "– Oh, querido! Eu sou um pouquinho de tudo. Sou universal! Reni Wassulmaier! Mas você, anjo, você é único! Posso filmar você tirando a roupa? – Vic pergunta indiscretamente a Vic." hee não seria "Reni pergunta indiscretamente a Vic"?

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