quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Vice City - Parte 1


Aquela noite chuvosa de Liberty City não estava muito convidativa para uma reunião. Como de costume na cidade, quase todo mundo andava de sobretudo, chapéu, luvas e outros acessórios para escaparem do frio de inverno daquele começo de 1986. Mas a família Forelli tinha negócios a tratar. Com a máfia italiana da cidade não havia tempo ruim. Seu líder, ou Don, era Sonny Forelli, um homem até jovem para esse alto cargo. Tinha trinta e sete anos, cabelos pretos, bom porte físico e só vestia as roupas mais caras do país. Já era líder da famiglia desde os anos setenta, quando transformou rapidamente sua organização criminosa na maior da cidade, investindo em prostituição, jogos de azar, agiotagem, sindicatos, etc. A família tinha Portland Island, uma ilha afastada do grande centro de Liberty City, como base. Lá era um local mais pobre, não havia tanto policiamento como nas áreas mais ricas da cidade, portanto era mais fácil para máfias e pequenas gangues se instalarem e construírem seu império ou terem seus domínios de bairros.

A reunião daquela noite aconteceria em um estabelecimento de um dos líderes dos Forellis. Marco era irmão de Sonny e um grande apreciador da culinária de seu país, portanto abriu o Marco’s Bistro, um restaurante italiano no bairro de Saint Mark. A reunião seria entre três dos quatro irmãos da família: Sonny, Marco e Franco, o irmão mais novo. Mike Forelli, mais conhecido como “Boca”, estava na Itália naquele ano. Todos os irmãos chegam escoltados por seus soldados e se reúnem em uma sala escura, no topo do fino restaurante. Marco recebe seus dois irmãos naquele ambiente agradável, tocava “Broken Wings” da banda Mr. Mister bem baixo em um sistema de som. O assunto? Um cara que sairia da cadeia no dia seguinte, chamado Thomas Vercetti.

 Tommy Vercetti!? Porra! – Sonny se espanta – Achei que nunca iriam libertar ele...

 Ele ficou de boca calada, isso ajuda a todos esquecerem... – diz Marco.

 As pessoas vão lembrar cedo o bastante quando o virem andando pelas ruas dos bairros... – Sonny se preocupa – Será péssimo para os negócios.

 Então...O que vamos fazer, Sonny? – Marco pergunta.

 Vamos tratá-lo como um velho amigo e deixar ele ocupado longe da cidade, ok? – Sonny diz – Estamos pensando em expandir os negócios para o sul, certo? Vice City é um ouro de vinte e quatro quilates hoje em dia. Os colombianos, os mexicanos, puta que pariu, até aqueles refugiados cubanos estão pegando um pedaço do bolo!

 Mas são drogas, Sonny! Nenhuma das famílias vai mexer com essa merda... – Franco se lembra das regras anti-drogas da Cosa Nostra.

 Os tempos estão mudando. As famílias não podem dar as costas enquanto nossos inimigos estão pegando tudo. Então, nós mandamos alguém para lá para fazer o trabalho sujo para nós e pegamos uma boa fatia depois, ok? – Sonny propõe – Quem é nosso contato lá?

 Ken Rosenberg. Um advogado idiota... – Marco responde – Como ele vai segurar o Vercetti?

 Não vamos precisar disso. Vamos apenas soltá-lo em Vice City e damos a ele um dinheirinho para começar, ok? Damos a ele alguns meses. Aí a gente vai até lá, faz uma visitinha a ele, certo? Vemos como ele está indo... – Sonny trama um grande plano para fazer uma investida em Vice City usando o ex-presidiário.

Thomas Vercetti era conhecido pelas ruas de Liberty City apenas como “Tommy” em 1971. Era um jovem ítalo-americano de apenas vinte anos de idade que se tornou um dos soldados da família Forelli pelas ruas, pois sua família era pobre e não havia tantas oportunidades boas de trabalho para rapazes de origens italianas na cidade, apenas se suas famílias tivessem um comércio. Seu pai até tinha uma pequena loja de impressões, onde, na adolescência, Tommy costumava limpar os rolos das poucas máquinas que lá havia. Mas seu caminho, assim como de vários outros jovens que conhecia, acabou sendo o crime organizado. Tommy era um garoto muito frio pela pouca idade e rapidamente começou a se destacar naquele ano entre os soldados da famiglia. Logo os irmãos Forelli, que eram caporegimes da organização, trataram de elevar a posição de Tommy na família. Em apenas sete meses trabalhando, ele já era um uomo d’onore, batizado como membro importante da organização, um recorde na história das famílias da cidade. Ninguém nunca tinha sido tão valorizado em tão pouco tempo na máfia de Liberty City.


Tommy Vercetti era um jovem com muito futuro. Além de ser um ótimo matador, também era um ótimo estrategista, usando sua inteligência e seu temperamento fortíssimo para intimidar inimigos e conseguir informações facilmente. Sonny, já Don da família, via essa capacidade de Tommy como algo ótimo, porém muito perigoso. Ninguém era confiável nas ruas daquela cidade, a qualquer momento seu homem de confiança poderia te trair. Era necessário para qualquer líder de organização ter ao seu lado homens bons, mas inferiores. Ter ao seu lado alguém que pudesse te ultrapassar e assumir o controle dos seus negócios não era o melhor modo de trabalhar em equipe em Liberty. Após pensar muito, decidiu, sozinho, tirar Tommy da família Forelli. Mas aquilo teria que ser um tiro certo, algo que não fizesse Tommy voltar e se vingar. Matá-lo nunca passou pela cabeça de Sonny, que pensou que se Tommy fosse preso em um trabalho para a família e recebesse um bom apoio na prisão, o respeito continuaria no soldado e poderia usá-lo depois, quando a estrutura organizacional da família estivesse ainda mais forte. E assim preparou uma emboscada.

Em uma das noites daquele fim de ano, Sonny convocou Tommy para um trabalho complicado. Deveria ir até o bairro de Harwood para matar um homem que atrapalhava os negócios de prostituição da família e seus soldados. A história que Tommy ouviu era algo sobre outro prostíbulo querendo maior espaço na região, roubando clientes da família. Tommy recebeu doze endereços em um papel e foi até cada casa daquela lista, em ordem. Matou onze homens naquele bairro. O último homem da lista era descrito apenas como Sean. Era o suposto cafetão. Era o dono da última casa da lista, que estava com as luzes acesas. Tommy foi até os fundos, lá havia uma janela aberta. Seria por ela que entraria para matar quem Sonny mais queria. Mas Tommy teve uma surpresa ao ver, de fora da casa, um quadro na parede de uma sala vazia: era um quadro de homenagem a Sean Lutter, oficial de polícia da LCPD (Liberty City Police Department). Assim que viu o quadro, Tommy sentiu algo em sua nuca. Era uma arma. Uma voz grave disse:

 Parado, você está preso, garoto!

Pela primeira vez, Tommy Vercetti se sentiu dominado. Ele nunca havia passado por uma situação daquelas, portanto não sabia o que fazer para se livrar. Por mais durão que já fosse, ainda era um moleque de vinte anos com medo de morrer jovem. Não resistiu à prisão, apenas se ajoelhou, largou sua arma e sentiu algemas prendendo seus punhos. Qualquer pessoa com experiência no ramo do crime desconfiaria de ter sido mandado para matar um policial. Esse tipo de trabalho não era dado a soldados e sim apenas a pessoas com posições mais altas na hierarquia da família. Mas Tommy não desconfiou das más intenções de seu amigo e patrão Sonny, havia vários policiais envolvidos em prostituição na cidade, de qualquer forma. O que ele não sabia era que os onze homens que havia matado naquela noite eram apenas soldados da família Leone, outra famiglia da Cosa Nostra, rivais dos Forellis. Tommy havia caído completamente na emboscada de Sonny.

Jornais da cidade logo deram um apelido ao jovem Vercetti: “The Harwood Butcher”, ou “O Açougueiro de Harwood” pela carnificina que causou no bairro na noite anterior. Tommy foi preso e seria condenado a sessenta anos de prisão por todos os assassinatos  que foram cometidos por ele naquele ano, mas com a influência da família Forelli com os juízes e políticos da cidade, foi feito um acordo interno entre ambas as partes para a retirada de vários assassinatos de sua responsabilidade, fazendo a condenação ser apenas pelas onze mortes daquela noite. A pena ficou acertada em quinze anos, o que, logicamente, chocou a população de Liberty City. Isso fez o jovem Tommy manter todos os segredos e informações sobre os Forellis intactos, por gratidão pela ajuda que recebia. Mas aquele caso de corrupção era apenas mais um naquela década, logo o povo esqueceria do que aconteceu, pois um novo absurdo apareceria para tomar toda a atenção possível.

E assim os anos se passaram. Naquele início de 1986, Tommy foi finalmente solto. Foi recebido por um carro preto dos Forellis e levado a um apartamento em Portland. Lá almoçou e foi informado que Sonny queria que ele voasse até Vice City para conduzir uma negociação de drogas para a família. Tommy estranhou o fato de haver drogas envolvidas nos negócios da máfia, mas pensou que os tempos eram outros, aquilo agora deveria ser normal, já até tinha ouvido rumores sobre isso na prisão. A passagem já estava comprada. O vôo seria às duas da tarde. Com Tommy, iria uma maleta que guardava milhões de dólares, além de dois novos membros da família, Harry e Lee. Em Vice City, Ken Rosenberg, um advogado que há alguns anos atrás investigava o caos causado pelas gangues cubanas e haitianas da cidade, aguardava os italianos. Assim que aquele avião pousasse naquele aeroporto, a cidade nunca mais seria a mesma.

3 comentários:

  1. Muito bom cara, vai ser muito divertido ler essas histórias de Vice City

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  2. Mano, nunca joguei o jogo, vai a série do seu amigo Funky, adorei, realmente a Rockstar faz incríveis trabalho, vim aqui pra entender melhor a história. Eu digo de fã pra fã, seu trabalho está incrivel. Muito obrigado! Estou vendo a história na ordem de lançamento, mas como você ainda não fez sobre o GTA 3, vou começar pelo VC mesmo :D

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    1. Muito obrigado pelas palavras, brother. Realmente há muito bom trabalho nos roteiristas da Rockstar, isso deve ser explorado.

      Sobre a história, o GTA 3 será o último a ser transformado em storyline por conta da linha do tempo. Antes de começar a ler o Vice City, recomendo começar pelo Vice City Stories, que já está pronto no site. Ele é a base para o Vice City, conta muita coisa e apresenta vários personagens.

      Grande abraço.

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