terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Vice City - Parte 19


Uma semana se passou e Tommy percebeu que investir em comércios de fachada era um ótimo negócio para sua organização. Os lucros da sorveteria foram imensos com o investimento feito em mais carros de “sorvete” e o aumento significativo da clientela. A hora de expandir o mercado de drogas e influências era aquela e o novo dono da cidade já tinha outro comércio na mira. A Kaufman Cabs era uma empresa de táxis que ficava em Little Haiti. Se instalou na cidade em 1985 e não era a maior. A Vice City Cabs era a maior empresa, com uma frota mais numerosa e carros mais modernos. Mas Tommy gostava de levantar quem estava embaixo, e a Kaufman Cabs não estava muito bem naquele momento, além de estar desvalorizada. Ele entra em contato com o dono da empresa, Jack Kaufman, e a compra por um valor baixíssimo, apenas quarenta mil dólares, pois a venda era a única saída para a falência.

Como a empresa ficava em um grande prédio amarelo em Little Haiti, bairro que Tommy havia sido proibido de estar por Tia Poulet, ele vai visitar a empresa acompanhado por três seguranças para se apresentar a seus novos funcionários. Na garagem havia alguns carros e motoristas, além de uma salinha para uma senhora informar via rádio sobre novas corridas. Tommy vai até a despachante.

 Acho que você é o novo dono... – diz Delores, uma senhora de aproximadamente sessenta anos, cabelos brancos presos, óculos de grau e agasalho, sentada em frente a um microfone – Você é de onde? Máfia? Cartel? Você não parece mexicano. De qualquer forma, é melhor você começar logo com aquela merda de “as coisas vão começar a mudar por aqui”, talvez ameaçar um dos motoristas. Vá direto no Ted ali, ele acabou de se curar de uma hérnia.

 Sim, claro... – Tommy olha para Ted, um dos taxistas, que era gordinho, de bigode e chapéu, arrumando o porta-malas de um dos carros – As coisas vão mudar por aqui, senhora.

–  Ah, não, filho. Deixa isso comigo, eu já faço isso há anos... – Delores puxa o microfone para falar com os funcionários – “Todos ouvindo, por favor! Estamos sob nova direção e as coisas irão mudar por aqui novamente. Nosso novo diretor aqui, o...” De que gangue você é mesmo?

 Bom, eu não faço parte de nenhuma gangue, na verdade... – Tommy diz.

 Me fala a merda do seu nome, garoto! – Delores se irrita.

 Vercetti! Tommy Vercetti! – Tommy diz.

 “Nossa nova direção, a Vercetti Gang, vai fiscalizar tudo para que não tenhamos problemas. Capiche? Agora vão!”  – Delores volta a usar o microfone – Gostou do “capiche”? Eu gosto do “capiche”. As coisas eram assim no passado: a gente comanda a empresa normalmente, se nós tivermos algum problema com empresas rivais, a gente detona eles, aí eles detonam a gente, a gente detona eles, etc, etc. Entendeu?

 Sim, acho que sim... – Tommy responde.

 Pegue um dos carros se você quiser experimentar... – Delores sugere.

Tommy anda pela garagem para conhecer os carros, que eram todos do modelo Glendale ano 1968, carros ridículos se comparados aos Sentinels ano 1984 da Vice City Cabs. Quando estava dentro de um dos carros, Tommy ouve Delores falar pelo rádio:

 Ok, nós temos um cliente da alta sociedade esperando ser buscado em Starfish Island. Alguém livre?

 Tommy aqui, eu busco! – Tommy responde no rádio, surpreendendo a todos.

O dono da empresa sai com um táxi para buscar o cliente. Realmente as coisas mudariam ali, era o que pensavam os funcionários. Tommy recebe as informações sobre o cliente por Delores via rádio e se aproxima de uma das mansões de Starfish Island, em frente à dele. O cliente milionário aguardava em seu jardim e quando vê o táxi da Kaufman Cabs começa a caminhar em direção ao portão. De repente um táxi da Vice City Cabs surge subindo a calçada da mansão para pegar o cliente.

 Esse cliente é meu! Sai fora, cuzão! – diz o taxista.

O cliente entra no táxi da Vice City Cabs, que sai em disparada. Tommy começou a compreender como funcionava o jogo das empresas de táxi da cidade. Mas aquele taxista provavelmente não sabia que a Kaufman Cabs tinha um novo dono casca-grossa e que quem dirigia era o próprio. Tommy vai atrás do táxi que roubou seu cliente e atira em seus pneus, o fazendo rodar antes mesmo de sair da ponte de Starfish Island. O cliente milionário abre a porta do táxi desesperadamente e fica sem saber o que fazer.

 Vem! Vem! Entra, rápido! – Tommy grita para o homem ao parar seu táxi ao lado.

 Ok, ok! Só não me machuque! – o homem entra no carro.

O homem diz que apenas queria ir ao aeroporto. Tommy o leva até lá olhando por todo caminho se não haveria táxis de outras empresas querendo fazer o mesmo que ele tinha acabado de fazer com o táxi da Vice City Cabs. O cliente chega ao aeroporto em segurança e dá mil dólares a Tommy, talvez pelo medo, talvez por ter sido salvo de uma guerra de taxistas.

Enquanto voltava para a empresa, Tommy ouve no rádio a ira de Delores, que reclamava sobre a moleza de seus motoristas:

 Chamando todos os carros! Estamos perdendo clientes pela cidade inteira! O que há com vocês!?

 A Vice City Cabs continua dando uma surra em nós! Eles tem muitos carros, não tem como competir! – Ted, o taxista que Delores comentou anteriormente, responde via rádio.

 Senhor Vercetti... Se estiver ouvindo aí, é melhor colocar alguns carros da Vice City Cabs para fora do mercado antes que a gente decrete falência! – Delores diz.

Tommy não fala nada, decide fazer seu papel como responsável pela empresa em silêncio. Andando por Little Havana, já vê um dos táxis da empresa rival. Ele fecha o táxi no meio da rua e sai do carro sacando sua metralhadora. O taxista tenta fugir mas tem seu carro atingido por uma rajada de tiros. Gasolina começa a vazar aos montes e o homem sai correndo para não ser vítima de uma possível explosão. Já na praia, outro veículo da Vice City Cabs é vítima de Tommy. Ele dirige ao lado do táxi rival e atira, mas desta vez não no carro, e sim no motorista. O tiro atinge a cabeça do taxista, que morre na hora. Seu táxi perde a direção e vai direto para o mar, afundando. O terceiro e último táxi que Tommy tiraria das ruas estava no centro da cidade. E para isso, Tommy usa uma isca. Ele vai até o Café Robina e dá cem dólares para algum cubano pagar uma corrida com algum táxi da Vice City Cabs, matar o taxista e atear fogo no carro. O cubano é levado até o centro e lá faz sinal para o táxi parar. Ele entra e diz que quer ir para seu bairro, Little Havana. Lá chegando ele saca sua pistola e atira na nuca do taxista. Seus parceiros de gangue o ajudam a jogar um balde de gasolina no carro e atear fogo. Mais um rival havia sido eliminado.

A adrenalina de participar do dia daquela empresa desvalorizada renascendo fez bem a Tommy. Apesar de ser o novo dono, ele achou legal passar toda a tarde trabalhando em prol da empresa, ainda mais pelo motivo do mercado de táxis da cidade ser uma adaptação da vida que o próprio Tommy vivia. Em resumo, tudo era máfia.


Tommy passou o resto da tarde e a noite na empresa, conversando com Delores e os taxistas que ficavam disponíveis momentaneamente. Falou sobre sua vida, sobre o que passou para chegar onde estava, etc. Estava se sentindo muito bem, afinal era mais um motivo para não ter que ficar em casa resolvendo problemas que pagava a seus empregados para resolverem. Às dez da noite, coincidentemente, uma conhecida de Tommy, que estava sentado em um táxi, liga para a empresa pedindo seu serviço.

 Carro treze, temos um chamado da senhorita Cortez especialmente para você... – Delores diz.

 Ok, entendi! Carro treze saindo! – Tommy responde.

Delores passa o endereço que Mercedes se referiu na ligação. Era em Viceport, em frente ao antigo apartamento de Phil Cassidy, que havia se mudado dali e levado seu salão de tiro. Tommy não estranhou, afinal Mercedes era uma prostituta e poderia estar em qualquer lugar da cidade naquela noite pelo preço certo. Mas ao se aproximar do local, Tommy foi se dando conta de que era a primeira vez que voltava no exato local onde sua vida tinha mudado para sempre. Foi ali que o atentado contra ele aconteceu. Mas como era um cara totalmente frio, ele não se abalou e entrou com o carro pelo mesmo portão aberto que Ken Rosenberg entrou com ele, Harry e Lee naquele dia.

Estava escuro e totalmente deserto naquele ponto de Viceport. Só se ouvia o barulho das ondas do mar ao lado. Tommy desliga seu táxi e olha ao redor procurando Mercedes, mas ela definitivamente não estava ali.

 Humm... Nenhum sinal da Mercedes... – Tommy estranha.

Quando ia pegar o rádio para conferir o endereço com Delores, Tommy é surpreendido. Uma tropa de seis táxis da Vice City Cabs entram em fila indiana pelo mesmo portão que Tommy passou. Rapidamente fazem um cerco ao táxi de Tommy. Claramente era uma vingança pela morte dos dois motoristas da empresa naquela tarde. Sempre armado, Tommy pega sua metralhadora. Mas se todos ali estivessem armados, era o fim. Tommy morreria no mesmo local onde sobreviveu ao pior momento de sua vida. Pela primeira vez em Vice City, ele se sentiu impotente, pronto para morrer. Os táxis rivais começam a ir para cima do carro de Tommy, que sai em disparada arranhando seu táxi pelo muro para escapar em direção ao portão. Mas lá havia outros dois táxis bloqueando a passagem. Como o local era grande, Tommy começa a rodar em alta velocidade para fugir dos seis táxis, que corriam atrás dele, mas não faziam nada, pareciam apenas querer assustá-lo. De repente, todos param. Aparentemente haviam recebido uma mensagem simultânea. Eis que surge no portão um táxi totalmente único, amarelo com grandes listras pretas. Estava escrito “Zebra Cab” em sua traseira. Era simplesmente o dono da Vice City Cabs em seu carro especial, que ao passar do portão, grita:

 Está na hora do anjo da guarda da Kaufman Cabs comer o próprio para-lama!

O taxista estava sedento por vingança. Tommy espertamente sai de seu carro e se aproxima calmamente do limite entre terra firme e mar, que tinha suas ondas batendo a uns quatro metros de altura abaixo de onde estava acontecendo toda a ação naquela noite. O dono da Vice City Cabs acelera com toda sua força o carro em direção a Tommy. Provavelmente estava cego de ódio, pois não percebeu que atrás de seu inimigo só havia uma grande queda para o mar. Tommy calmamente aguarda seu inimigo chegar com o carro até certo ponto onde não poderia mais fazer a curva e evitar a queda devido a grande velocidade. Tudo se passava em câmera lenta na gelada cabeça do italiano. Tommy corre para o lado esquerdo, saindo da direção do táxi, e o taxista se dá conta pela primeira vez que estava indo direto para a queda, e já era tarde demais para curvar. Ele se joga do táxi pouco antes do veículo voar em direção ao mar. O dono da maior empresa rival da nova Kaufman Cabs fica de joelhos em frente a Tommy, que não hesita em matá-lo com um tiro na cabeça na frente de todos os seus funcionários. Aquele ato não foi só a confirmação do domínio de sua nova empresa no ramo de táxis da cidade e sim um ato simbólico, que mostrava para todos os funcionários da Vice City Cabs o local e para quem eles deveriam trabalhar. Um silêncio toma conta do lugar. Tommy se volta para os oito taxistas que acompanhavam seu ex-chefe e pergunta se queriam ter o mesmo fim. Todos negam. Então Tommy os obriga a jogarem seus táxis no mar e comparecerem no dia seguinte à garagem da Kaufman Cabs, pois seriam os novos motoristas da empresa. Ele volta para a empresa para deixar o carro para os funcionários do turno noturno trabalharem. E volta para casa pensando no fato de ter escapado de duas tentativas de assassinato naquele mesmo local. Definitivamente não queria voltar lá e arriscar uma terceira.

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