segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

San Andreas - Parte 1


Naquele início de 1987, Los Santos era a cidade da moda, a capital mundial da cultura popular. De acordo com sua prefeitura, a cidade era uma das mais lindas e mais audaciosas do planeta. Tudo estava lá para todo mundo ver e ter. Era um paraíso urbano com estradas cruzadas, pontes, viadutos, bairros residenciais de classe altíssima, o lar dos grandes artistas da história. Era a capital do Estado de San Andreas, que ficava na costa oeste dos Estados Unidos. Mas Los Santos também tinha um lado bem menos glamouroso. Como toda grande metrópole, havia seu lado obscuro, seu lado sombrio. E tudo isso ficava bem longe das mansões, arranha-céus e estúdios de cinema do cartão postal da cidade. Eram bairros de classe baixa, subúrbios centralizados em uma área esquecida pelo governo chamada East Los Santos, recheada de todos os tipos de culturas e etnias que acharam aquela área para morar, principalmente afro-americanos e mexicanos, dois dos maiores grupos de habitantes da cidade. Vários bairros dessa região, como Ganton, Jefferson, Little Mexico, Willowfield, Glen Park, Idlewood, El Corona, eram dominados por gangues completamente violentas, que disputavam domínio de bairros através de guerras em plenas avenidas, ruas, becos, assim como todo o tráfico de drogas e prostituição. Aquilo virou rotina entre os moradores da área.

No terceiro dia daquele ano, uma turista de Vice City estava aproveitando a praia na cidade. Ela estava na Playa Del Seville, no extremo leste de Los Santos. Mercedes Cortez estava de biquíni roxo deitada sozinha na areia aproveitando o sol forte que fazia naquela tarde. Ela ficaria na cidade por alguns dias após ter recebido prêmios pelo filme pornô que participou, Bite, do diretor Steve Scott. Na orla da praia, dois jovens negros observam de longe a linda morena latina na areia. Seus nomes eram Brian Johnson, de dezessete anos, e Carl Johnson, de dezenove, também conhecido como CJ. Os dois eram muito parecidos, ambos com excelente forma física. Eles faziam parte da família Johnson, os líderes da maior gangue da cidade, a Grove Street Families, que comandava toda aquela região, assim como a maior parte de East Los Santos desde os anos setenta. Carl e Brian conversam sobre Mercedes até que o irmão mais velho incentiva o caçula a ir falar com ela para tentar algo. Os dois andavam sempre com roupas verdes, a cor símbolo da gangue que representavam. Brian decide se aproximar de Mercedes para se apresentar. Mas a alguns metros dali, passava um carro com cinco membros dos Ballas, a maior gangue inimiga da Grove. Eles avistam os dois jovens de verde na praia, mas não se atrevem a mexer com eles por conta das desvantagens. Mexer com a Grove Street naquela época era morte certa, pois para qualquer lugar que você fugisse, eles teriam um exército te esperando. Mas um detalhe enfureceu os Ballas daquele carro. Eles perceberam o biquíni roxo da mulher que os Groves estavam conversando. Roxo era a cor dos Ballas, e, como eles não viram a cor da pele da jovem, tiveram certeza de que Brian estava mexendo com uma das garotas da gangue deles, algo considerável imperdoável na periferia. Os Ballas param o carro, sacam suas pistolas e partem para cima dos dois irmãos de verde. Atiram em Brian sem pensar nas consequências que aquilo traria. O irmão caçula, que estava sentado ao lado de Mercedes, é atingido nas costas e cai na areia. Mercedes corre gritando desesperada pela praia. CJ, que estava sentado em um banco na orla, se assusta e já pega sua pistola para ajudar o irmão e olha para os lados, mas não havia ninguém de verde na praia para reforçar o contra-ataque. Vendo os cinco Ballas correndo na direção de Brian, CJ atira, mas erra, praticamente chamando os Ballas para sua direção. Inexperiente, o jovem negro não tem outra alternativa a não ser correr dali para se salvar. Seu irmão Brian ficou deitado na areia totalmente vulnerável aos Ballas, que não economizaram balas no adolescente de camisa verde, mesmo percebendo que a mulher que ele estava conversando era latina e não negra, como eram todas as garotas da gangue que eles representavam. Brian Johnson morreu naquela tarde com quinze tiros. Mercedes Cortez voltou para Vice City dois dias depois para continuar sua vida de prostituta, decidida a nunca mais voltar a Los Santos depois daquele episódio traumático que viveu.

CJ volta correndo para sua casa no bairro de Ganton, na Grove Street, uma rua sem saída que era cheia de casas em volta. Ele chega completamente ofegante. Na calçada da rua estava Big Bear, um homem de trinta anos, alto, gordo, um dos líderes da Grove. CJ se aproxima e diz que os Ballas haviam matado Brian na praia. Big Bear rapidamente chama vários membros importantes da gangue, como Little Devil e Big Devil, dois dos maiores assassinos do bairro, para irem até lá para pelo menos buscarem o corpo do Grove, e talvez tentarem alcançar aqueles Ballas, mesmo sabendo que era impossível naquela altura. CJ fica sentado na calçada o resto da tarde com aos mãos na cabeça, até o corpo de Brian chegar em um dos carros da gangue. Big Bear conta o que aconteceu para a família Johnson, que era formada pela mãe Beverly, a filha Kendl, o filho mais velho Sweet, além de CJ. Ninguém dormiu naquela noite na Grove Street.

No dia seguinte, Sweet, apelido de Sean Johnson, o irmão mais velho, ainda estava atordoado com a morte do irmão caçula, que era seu maior protegido. Ele acusa CJ de ter deixado Brian morrer, não tê-lo salvo como um verdadeiro membro da Grove faria. Os irmãos começam a brigar no meio da Grove Street, todos os membros da gangue observam a discussão feia dos Johnsons. Ninguém se mete, pois aquela era a família que mandava em todos ali. Apesar dos pedidos de calma de Beverly, CJ não aceita as acusações de Sweet e diz que vai embora. Ele iria abandonar a Grove, pois se não tinha uma atitude leal à política da gangue, ele não pertencia a ela. CJ faz uma mala e deixa a Grove Street Families no quarto dia de janeiro de 1987.

CJ não queria apenas deixar Ganton, ou Los Santos, ou San Andreas. Ele queria ir embora para um lugar bem distante. Chegou a pensar em Vice City, pois ouviu rumores das oportunidades para criminosos que a cidade oferecia naquela época. Mas se lembrou do que um amigo uma vez o falou. Esse amigo era um jovem de dezesseis anos chamado 8-Ball, que possuía uma loja de carros com seu pai em Los Santos, a 8-Ball Autos. O jovem era de Liberty City. Ele morou em Los Santos por um ano e voltou para sua cidade natal em 1986. Disse que se CJ precisasse, poderia ir até lá passar um tempo com ele e seu pai. É o que CJ faz, ele vai para a estrada e pega inúmeras caronas para cruzar o país até chegar a Liberty City.

CJ chegou à Liberty cinco dias depois. Era inverno. Ele chegou em uma manhã fria e ligou para 8-Ball de um telefone público, que deu o endereço de onde morava. CJ pegou um ônibus e chegou à casa de seu amigo. Em poucos dias lá, CJ foi apresentado a um playboy da cidade, Joey Leone, filho de Don Leone, líder da mais nova famiglia mais poderosa de Liberty City, após o império dos Forellis desabar com a morte de Sonny Forelli em Vice City no mês anterior. Joey tinha dezenove anos na época, mesma idade de CJ, mas era milionário e não tinha preocupações na vida. Ele era apaixonado por carros raros e recruta CJ para roubar os modelos específicos que faltavam para completar sua coleção. O jovem negro da costa oeste do país agradece pela oportunidade e começa uma vida nova longe da cidade em que passou toda a vida dando seu suor por sua família. O troco que recebeu foi ser visto como covarde apenas por salvar sua própria pele enquanto seu irmão morria.

Cinco anos se passam. O ano é 1992. Em Liberty City, CJ é um respeitado e sanguinário assaltante e soldado da família Leone, que haviam se estabelecido como os maiores representantes da máfia da cidade. O jovem de Los Santos era agora o braço direito de Joey, assim como 8-Ball. Mas o sucesso que CJ teve na costa leste do país, sua antiga gangue, a Grove Street Families, não teve em se manter como a maior da cidade.

Depois da morte de Brian e a partida de CJ, a Grove começou a entrar em declínio. Sweet comandava a gangue com pulso firme, mas foi se revelando tradicionalista com o passar dos anos, já que o comércio de drogas cresceu consideravelmente na região naquele período de cinco anos. Sweet era contra o envolvimento de sua gangue tanto com a venda de narcóticos quanto com o uso, o que foi o erro fatal para o desmantelamento da Grove, pois as outras gangues da região, como os Ballas e os mexicanos Varrios Los Aztecas e Los Santos Vagos, mergulharam de cabeça no tráfico e se deram muito bem, ganhando cada vez mais dinheiro e aumentando seu poder de fogo, sendo finalmente capazes de enfrentar o domínio de territórios da Grove. Em três anos, a Grove passou da maior gangue da cidade para a mais insignificante. Os Ballas assumiram o papel de gangue principal e as drogas se espalharam por toda Los Santos. Na época, uma nova droga entre as inúmeras que surgiram estourava entre os usuários, era o crack. Ricos e pobres se renderam à pedra fumável e o vício se espalhou rapidamente por todos os cantos, atingindo todos os membros da Grove, inclusive seus líderes. Menos Sweet, que era o único que ainda lutava contra as drogas, o que começou a incomodar alguns membros importantes.

Juntamente com a guerra por território entre os Ballas e a Grove durante esse período, a polícia da cidade organizou um grupo especializado em combate a gangues e todas as suas atividades ilícitas. Esse grupo foi nomeado CRASH (Community Resources Against Street Hoodlums). Era conduzido por três policiais: Frank Tenpenny, um homem de cinquenta anos, negro, alto, careca e de bigode; Eddie Pulaski, um polonês de trinta e seis anos, ruivo, baixinho e um pouco acima do peso; e Ralph Pendelbury, um homem loiro de trinta anos. Tenpenny e Pulaski eram completamente corruptos, transformando o grupo que existiria para dar paz aos moradores da periferia da cidade em um meio de conseguir dinheiro de traficantes em troca de tréguas. E a Grove era uma pedra no caminho destes dois oficiais, pois não se metiam no tráfico, o que fazia a existência da gangue de Ganton ser completamente inútil para eles. Estavam pensando em um jeito de acabar de vez com a Grove Street Families há anos. Mas os corruptos tinham algo a mais para se preocupar. E esse algo a mais estava mais próximo do que eles imaginavam.

Ralph Pendelbury, ao contrário de seus colegas de CRASH, era um policial honesto. E em todos aqueles anos rodando a cidade com Tenpenny e Pulaski, viu muitas atitudes que julgava incorretas por parte dos dois. Ele não recebia dinheiro do tráfico, não recebia favores. Apenas fazia parte do grupo por não ter outra opção dentro da corporação. Até que, em 1992, Pendelbury chegou ao seu limite. Ele entrou em contato com a corregedoria da LSPD (Los Santos Police Department) e ameaçou denunciar seus colegas por corrupção, exigindo a expulsão deles do quadro de policiais da cidade e prisão imediata. Também pediu transferência para outro grupo especial, o que foi atendido prontamente. Mas é claro que a prisão dos corruptos não seria tão fácil assim. Tenpenny tinha inúmeros contatos e influências no departamento, que logo o avisaram da atitude de seu agora ex-colega. Pendelbury foi substituído por um jovem policial latino na CRASH. E definitivamente aquilo não ficaria assim.

Em uma noite de março de 1992, Tenpenny e Pulaski estão em um dos bairros pobres de East Los Santos. Eles conversam sobre um certo membro da Grove.

Eu sabia que aquele gordo filho da puta iria cooperar com a gente... – Tenpenny diz.

Sim, sempre cooperam quando entendem as escolhas que nós oferecemos... – Pulaski diz – Mas diz aí, Frank, o que você acha desse Hernandez que vai começar com a gente?

A mesma coisa que pensei quase agora. Ou ele trabalha do nosso jeito, ou ele terá problemas, igual esse idiota da bunda grande aí... – Tenpenny se refere novamente ao gangster que acabaram de visitar – Olha, eu não estou preocupado com isso, Pulaski. Pendelbury não chega a ser uma preocupação. Se ele fizer as coisas que ele está ameaçando, aí sim as coisas vão ficar bem interessantes!

Sim... – Pulaski abre a porta da viatura e os dois vão embora – Ei, Frank, me dá um pouco desse fumo...

Em um dos becos ali daquela mesma rua, Ballas estão experimentando uma nova onda do momento, a hydro. Entre os três homens de roxo, está Bogman, um membro da Grove que não concordava com o que pensava seus líderes. Toda noite, ele usava roupas roxas por baixo das verdes para ir até a área dos Ballas para fumar a nova droga.

Deixa eu provar essa parada aí, mano... – um dos Ballas, Bass, diz enquanto Bogman acende o cigarro.

Pode crer, mano... – Bogman dá uma puxada e passa.

Que merda de maconha é essa, cara? – Bass diz após fumar e sentir um gosto diferente – Você não tem nada para fumar de verdade aí?

Isso não é maconha, mano, é aquela hydro... – Bogman explica.

Ah, que merda, cara... – Bass reclama.

Cara, você tem certeza sobre aquela parada? – Bogman pergunta sobre algo que eles conversavam antes de começarem a fumar.

Eu estou te dizendo, cara! A Grove Street virou lixo, véi. Acabou! – Bass afirma.

Mas a gente está se metendo com um dos OGs deles! – Bogman se refere a um dos líderes, um dos chamados OGs (Original Gangsters) – Você tem certeza que isso está tranquilo? Ou é uma armadilha?

Fica de boa, cara... Se alguém tentar fazer alguma merda... – Bass saca sua pistola – A gente detona eles!

Pode crer... – Bogman concorda.

Cara, a Grove Street não é nem uma gangue mais, mano. Eles são só um grupinho de bandido, até eles sabem disso. Um monte de coisa muda. E essa merda aqui... – Bass mostra o cigarro – Muda todo mundo, cara! Até os OGs querem um pouco disso aqui, viram clientes fieis!

Acho que você está certo... – Bogman diz após tossir com a fumaça de seu novo tipo de fumo – Essa merda muda tudo, né?

Pode crer! Vamos vazar, mano! – Bass diz e todos saem do beco para irem até uma das casas da rua.

Com a Grove Street Families em ruínas e a recusa de Sweet em entrar no mundo das drogas, aparentemente só continuava vestindo verde sem roxo dos Ballas ou amarelo dos Vagos por baixo quem realmente amava aquela gangue. Mas até seus líderes estavam virando as costas. Isso era um grande sinal de que algo bem ruim estava apenas aguardando a hora de acontecer na região.

6 comentários:

  1. Otimo texto gostei do prologo de gta san andreas otimo trabalho parabens

    ResponderExcluir
  2. Essa com certeza vai ser a história que vai fazer mais sucesso no blog!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Com certeza. Além de ser a maior história, é também o jogo mais jogado. Uma obra-prima!

      Excluir
  3. DEPOIS QUE O CARA DIGITOU TODO ESSE TEXTO ELE NAO TEM MAIS VIDAA

    ResponderExcluir