terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

San Andreas - Parte 2


Na Grove Street, a casa de um dos OGs da Grove vive cheia de fumaça. É a casa de Lance Wilson, mais conhecido como Ryder, um homem negro de vinte e seis anos, sempre de boné e óculos escuros, com um fino bigode e fala cheia de gírias. Ele é um dos líderes da gangue, mas, ao contrário do que Sweet pregava, era completamente viciado em PCP e maconha, chegando a plantar a erva em seu quintal. E esse vício não era atual. Aos dez anos de idade, Ryder largou a escola para se especializar em drogas, sendo traficante desde então. Como conheceu Ryder ainda na infância, Sweet permitiu o uso e venda de drogas do amigo mesmo vestindo verde, sendo o único membro da Grove a fazer isso oficialmente, mas nunca sendo permitido se envolver com drogas pesadas. Com o abandono de CJ em 1987, Ryder se tornou o segundo membro mais importante da gangue.

Logo atrás de Ryder, vinha Big Smoke, apelido de Melvin Harris, um homem obeso de trinta e quatro anos, sempre de chapéu e óculos. Smoke era o típico piadista da gangue, o cara que todos gostavam. Sempre tinha um papo suave que acaba convencendo a todos. Era religioso, vivia citando passagens da bíblia que só ele conhecia, entretanto. Em 1989, Big Smoke estranhamente deixou sua casa na Grove Street para morar em Idlewood, território já dominado pelos Ballas naquele ano. Sua desculpa era que ele havia recebido um bom dinheiro de herança de uma tia morta e queria morar em uma casa melhor. Sweet, na época, não duvidou da índole de Smoke, mas Beverly, a matriarca dos Johnsons, estranhou e pediu para seu filho ficar de olho nas atitudes do amigo. Big Smoke ficou sabendo da desconfiança e não gostou nem um pouco.

É na casa de Ryder que Smoke encontra seu parceiro naquela manhã. O maconheiro passava suas roupas na cozinha.

Pelo que eu estou vendo, mano, eu tenho que tomar o controle sobre o meu destino... – Ryder diz.

É assim que vai ser, mano. Tem tudo a ver com destino... – Smoke tentava convencer Ryder a fazer algo – Você sabe que eu te dou cobertura, né, mano?

Maneiro... – Ryder dá uma puxada em sua maconha e termina de passar sua roupa – Como minha roupa ficou, maluco?

Sim, ficou maneira... – Smoke se aproxima e volta ao assunto – Mas o que eu estou vendo é que a gente não tem escolha. Não tem nada para se sentir mal nisso. Você coloca a arma na cabeça de um irmão, o irmão vai fazer o que você mandar, seja ele um idiota ou um cara esperto. Ninguém quer uma bala no cérebro, mas se isso funcionar e nego levantar uma grana enquanto isso, hahaha, aí fica maneiro!

Vai ser preciso mais do que uma bala na cabeça para me pararem... – Ryder diz.

Hahaha, eu não duvido disso, mano! – Smoke ri e cumprimenta seu parceiro, que havia aceitado sua oferta misteriosa.

Uma das cidades vizinhas à Los Santos era San Fierro, uma cidade pequena, mas com a segunda maior população do Estado de San Andreas. Era uma cidade bem urbanizada, não havia terrenos desocupados em lugar algum, todas as suas colinas eram lotadas de casas e prédios de classe média. Era a terra dos hippies, que fizeram da cidade a capital mundial da contracultura desde os anos sessenta. Enquanto todo aquele jogo de convencimento acontecia em Los Santos, em San Fierro, outro gangster estava tentando convencer alguém a cooperar, mas de uma forma bem mais intimista: na base da porrada. Era T-Bone Mendez, o líder da gangue mexicana da cidade, San Fierro Rifas. Era um homem forte de quarenta e cinco anos, com um bigode grosso e temperamento extremamente violento. E mostrava isso batendo em Jose, um dos líderes dos mexicanos Varrios Los Aztecas, de Los Santos, a gangue inimiga dos Rifas após uma divisão de líderes nos anos oitenta, quando todos eram Aztecas. Ele bate em Jose quase até a morte na área portuária da cidade.

Você vai falar agora, mano! – T-Bone grita entre socos – Fala! É melhor você falar o que sabe!

Ei, Mendez! Chega, já é o bastante... – um homem de terno escorado em um carro dá a ordem.

Mike Toreno era um agente de alguma organização governamental desconhecida contra as atividades criminosas de gangues latinas nos Estados Unidos. Era um homem loiro de trinta e nove anos, bem vestido e completamente cínico. Ele usava T-Bone como meio de conseguir informações sobre os planos de mexicanos, cubanos, porto-riquenhos, todo tipo de latino que praticava crimes em San Andreas. Essa parceria governamental era disfarçada de parceria no tráfico de drogas, através de uma organização chamada Loco Syndicate, em que Toreno se passava por um traficante para se infiltrar nos esquemas dos latinos.

Desgraçado! Eu acho que esse vato é um rato filho da puta, ese! Posso sentir!  – T-Bone diz a Toreno misturando o inglês e o espanhol, como era característica dos mexicanos de todo o Estado.

Acho que a gente pode sentir outra coisa... – Toreno começa com o seu cinismo – Ele não vai falar agora.

Então o que a gente faz agora, mano? – T-Bone ajeita sua camisa manchada de sangue.

Acho que eu consegui um comprador em Los Santos... – Toreno revela.

Por cuanto, mano? Por quanto? – T-Bone pergunta.

Ainda não tenho certeza. Mas os valores são altos. Centenas de milhares de dólares por mês, baixo risco... – Toreno falava, quando seu celular toca – Alô! Sim! Isso, você leu corretamente. Bom, sinto muito por isso parecer assim para você. Sim. Não. Sim, é não convencional, sim. Bom, quando os seus métodos deram resultado? Quando? Ei, eu conheci gente que morreu por sua causa, então não estraga tudo comigo dessa vez, ok? É vital que isso funcione. A História entenderá. Eu trabalhei muito, eles confiam em mim agora. Sim! Não, não tem como você brincar com merda e não se sujar. Todo mundo sabe disso, inclusive você, ok? Olha só, tenho que ir!

Tira a mão de mim! – T-Bone continuava batendo em Jose enquanto Toreno falava ao celular distante.

Mendez! Olha só, quem me ligou foi um comprador. A gente tem que aumentar a produção. Não estamos pensando grande o bastante aqui, ok? Minhas conexões no Panamá podem nos dar todo o produto que precisamos, zerado! Mas você tem que arrumar o comércio. Por que você não para de dançar com o seu namorado aí e se prepara? Hein? – Toreno se refere ao coronel Juan Cortez, que saiu do tráfico de Vice City para voltar ao Panamá, seu país natal.

Ah, cara, que se foda. Vou tirar esse lixo daqui... – T-Bone resmunga enquanto arrasta Jose desmaiado – Você é bem pesado para um corpo morto, cara...

De volta a Los Santos, os membros da Grove jogavam dados na rua em uma tarde ensolarada. Estavam lá Sweet e Big Smoke, juntamente com outros dois membros, Tarnell e Maul.

O bebê precisa de umas fraldas! Hahaha! Puta que pariu! – Sweet grita ver Tarnell humilhando Maul no jogo.

 – Aí, maluco, a gente está perdendo as ruas, cara... – Smoke muda de assunto repentinamente.

Que nada! A gente está apenas mantendo os nossos princípios, mano! – Sweet responde.

Mas os nossos princípios estão transformando a gente em vadias, cara! Todo dia os Ballas ficam mais fortes, e você e eu ficamos mais fracos. Você e eu ficamos mais pobres, cara! – Smoke reclama.

Cara, essa merda toda vai passar... – Sweet põe a mão no ombro de Smoke – Sempre passa...

Não vai, cara! – Smoke continua.

Um garoto sem camisa, cheio de tatuagens e de touca invade a calçada onde jogavam. Seu nome era Jeffrey Cross, de vinte e um anos, um garoto que tinha o sonho de ser um gangster respeitado, ser chamado de OG Loc, além de ser uma grande estrela do rap, mas faltava talento para as duas coisas.

Cara, quem já ouviu falar de algum rapper gangster chamado Jeffrey? – Jeffrey reclama.

Jeffrey, sai fora daí, cara. Você está atrapalhando o jogo! – Smoke se irrita e puxa o garoto.

OG Loc! Agora esse é meu nome de gangster, cara! – Jeffrey grita – Tipo Sweet, ou Big Smoke!

Jeffrey, você não é gangster! – Smoke diz.

Cara, você nunca arrumou nada por aí. Você é parceiro, mas não é gangster... – Sweet ri e consola o garoto.

Cara, eu sou sim, mano! Na moral! – Jeffrey insiste.

Ok, beleza! Agora vaza porque você está atrapalhando meu jogo aqui... – Sweet diz.

Sabe de uma coisa? Eu vou provar para vocês que eu sou gangster de verdade! Vai vendo! – Jeffrey quase começa a chorar.

Jeffrey, vai para a faculdade, cara! Vai ser alguém na vida! Eu e o gordão aqui, a gente bagunçou nossa vida toda. A gente está mergulhado pra caralho nessa vida, cara. Somos produtos do ambiente. Não seja idiota, cara! Orgulhe a gente, faz umas paradas diferentes, baby! – Sweet diz.

Mas eu sou um rapper gangster! É minha vocação, mano! – Jeffrey insiste, o que arranca risadas de Sweet.

Olha só, cara. Faz o que você quiser, mas vaza daqui! – Smoke não aguenta mais ouvir os gritos desafinados do garoto.

Isso, cara, vai ser gangster em outro lugar, baby... – Sweet diz ainda rindo.

Esquece! – Jeffrey vai embora enfurecido.

Isso aqui não é um parque de diversões, cara! – Smoke volta ao assunto que tratava com Sweet antes do garoto aparecer – Essa é a maior oportunidade de fazer um dinheiro que caras como nós vão ver...

Eu tenho todas as paradas que eu preciso... – Sweet corta e se irrita – Cara, eu achei que a gente estava nessa pelo gueto, não para destruir a família, cara! Isso aqui é Grove Street, negão! Rola esses dados aí!

Falando em manter a família unida, você tem ouvido algo sobre o CJ ultimamente? – Smoke percebe a irritação e muda de assunto.

A gente não se fala. Ele tem a vida dele. Mais do que ele merece... – Sweet responde.

Tem o que? Brian morreu tem o que? Cinco anos já? – Smoke pergunta.

Sim, tem cinco anos que o CJ deveria ter morrido. Cara, eu perdi dois irmãos! Um foi assassinado e o outro se mostrou um cuzão filho da puta... – Sweet continua irritado.

Você é um verdadeiro gangster, cara, mas precisa iluminar essa cabeça. Sobre o CJ, ele... – Smoke dizia, mas é interrompido.

CJ fugiu como um imbecil para a costa leste! Ele pode apodrecer no inferno que eu estou pouco me fodendo! – Sweet explode, pois não gostava nem de ouvir falar o nome do irmão.

Em Liberty City, CJ estava com uma vida tranquila enquanto soldado dos Leones. Era um assaltante experiente, nunca vacilava em roubos de carros para Joey, sempre fazia tudo corretamente. Era o que ele fazia no exato momento em que Sweet falava dele em Los Santos. CJ estava em Portland tentando roubar carros indicados por seu chefe, mas não estava conseguindo. É quando um dos carros da lista para em um sinal na rua. CJ olha para os lados e percebe a rua meio vazia. Rapidamente ele se aproxima do carro, puxa a cabeça do motorista e a bate na lataria, o fazendo desmaiar na hora. CJ sai com o carro tranquilamente enquanto o motorista fica desacordado no meio da rua. Enquanto leva o carro para a garagem, ele liga para Joey:

Joey? E aí, beleza, cara? Aqui é o CJ! Sim, to ligado. Eu nunca conheci o meu pai, mas o meu irmão costumava deixar minha vida uma merda. É isso aí, bom, é para isso que família serve. Então, eu arrumei aquela parada que você queria. Quer que eu deixe na garagem? Não, não, eu tenho que tirar essa parada da rua, cara. É muito perigoso. Ah, beleza, então. Até mais!

CJ leva o carro até uma garagem de Joey, que começava a transformar o local em uma oficina. Pelo jeito que as coisas andavam para o jovem de Los Santos, não havia lugar melhor para se viver do que a costa leste, perto de homens importantes, perto do dinheiro fácil e longe de sua família, principalmente seu irmão. 

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